11.8.16

fuga

fuga é um tipo de música em que parece que as notas saem correndo umas das outras. pra mim, ao menos. mas hoje me disseram que tenho muita imaginação. eu adoro fugas. me deixam com uma sensação de leveza. daí eu fui ler um post na renata. e ele falava de casas de mapa astral. e daí eu pensei na minha vida. em que estou aqui fugindo do trabalho vendo o mark spitz falar e esperando o phelps entrar na piscina.

eu fujo. eu saio correndo. eu não quero saber. eu esperneio, eu choro e eu fujo. faço muito bem. estou aqui reclamando da vida. de estar só. de estar mourejando com tanto trabalho. ok, de trabalho eu não fujo. eu gosto. eu peço. mas do resto... não se preocupem. eu posso voltar. um dia eu volto, quem sabe. mas eu preciso seguir indo e mudando. é bom. vocês deviam tentar. o salto no escuro. deixando pra trás tudo. um dia eu ainda saio do rio. mas o rio... talvez seja meu único relacionamento estável de verdade.


5.8.16

alta cultura

não, sai daí. isso é infantilização. não, sai daí, não ouve essa música, ela é ruim. pera, isso é hiperssexualização. isso é bobo. isso é ruim. isso é infantil. isso é pouco sofisticado. isso não deve, não pode, não quero que exista. não devia existir, é isso.

então. assim. eu sou uma chata. uma chata que nasceu com 80 anos. uma chata que só ouve música dos anos 60. uma chata que só assiste filme velho (e adora musicais). uma chata que trabalha, vejam só, pesquisando literatura. mas a chata aqui aprendeu. na marra. debaixo de porrete se duvidar. que não. não tenho nada. zero. nadica mesmo. a ver com o que o outro assiste, joga, ouve, lê. não tem diferença alguma entre o meu luandino e o harry potter alheio. sigo preferindo luandino. é a minha vida isso daqui e eu gosto mais. você, espero, sabe do que você gosta. e, espero, não me ache mais chata do que achava antes porque eu prefiro o autor angolano pouco conhecido. eu gosto das brincadeiras com palavras e do engajamento político. eu tenho prazer vendo hello dolly. nem todo mundo ama barbra, eu sei. eu amo. a gente pode e deve amar as coisas. e devia não ligar pro que o outro ama.

me ensinaram. ali na marra. que alta cultura e baixa cultura. high e low brow, se vocês preferirem. são conceitos velhos. conceitos de quem acha que pode impor sua cultura aos outros. de quem acha que a cultura letrada e europeia é superior à cultura oral e não ocidental. e daí. tudo que não é ocidental entra nesse viés do ruim. do não valer. do precisar ser discutido e achincalhado. não. eu quero os barbarismos, diria manuel bandeira. todos. eu quero dançar e brincar na rua. eu quero comer com as mãos, fazendo capitão pras crianças perto de mim. quero ler também porque pra mim. e só pra mim. é importante. não precisa ser pra mais ninguém. vamos. a gente pode. entender que cultura é construção e coletivo. e também indivíduo e único. e que cada pedaço. cada cultura. cada jogo. cada livro. cada música. vale. mas não precisa gostar, não. pode só entender. que não é a sua. mas...

4.8.16

gatilhos



eu procuro gatilhos. esses tais emocionais. eu tenho pavor de viver escondida, segura, certa do que faço. quero gatilhos. quero ser confrontada com minha fragilidade eterna. ser colocada na condição de saltar no escuro. de buscar o afeto. eu amo gatilhos. eles me fazem pensar como cheguei aqui. eles me fazem lembrar que. apesar de tudo. ou por causa de tudo. eu sobrevivi e estou aqui. exatamente como eu queria. ou de forma alguma como eu queria. mas aqui. com meus pedaços feito cacos colados. como aquela restauração com ouro japonesa. ficam as marcas. as marcas são eu também. não tenho nenhuma vontade de esconder as marcas. eu conto as marcas. eu choro com elas. elas tão aqui. como as quelóides. eu tentei tirar as quelóides. voltaram. eu desisti de tirar minhas marcas.

eu não entendo esse lugar quente e seguro que as pessoas buscam. eu não entendo esse lugar sem nenhum incômodo. sem nada que fuja do esperado ou do pretendido. sem que nada fuja do controle. a falta de controle me faz falar demais. aqui e nas outras redes. a falta de controle me faz amar. me faz querer ter afeto pelas coisas. pelas pessoas. pelos estudos. pelos saberes. o controle aprisiona a gente como mais uma coisa. se tudo está e é controlado, onde iremos? em que espaço queremos ficar? a gente se limita, e não ao mundo.

eu não quero ter limites eu não quero que nada fora de mim me impeça de nada. eu preciso saber que. o gatilho. a mudança. é minha. eu vou ouvir. lidar. passar e seguir. porque o mundo pode tentar. mas não precisa conseguir. a gente pode ser mais forte. sempre. como o jasmim manga. que não é bem jasmim nem manga. mas que renasce sempre depois de perder todas as folhas. e segue sendo a árvore mais linda. tem uma no meu jardim.

1.8.16

ídolos

ídolos têm pés de barro. a gente aprende isso cedo. aprende que veio sozinho e sai sozinho desse mundo. tem gente que não aprende, eu sei. mas eu aprendi muito cedo. não sei se por causa da figura paterna... digamos instável (mas adorável, absolutamente adorável e sedutora). eu aprendi que ídolos são lindos. ídolos são brilhantes. ídolos são sedutores. ídolos são menores do que eu. eu quem vou acordar de manhã. eu quem vou fazer meu trabalho. receber meu dinheiro. correr atrás. eu quem vou lidar com minha gripe. quem vou ter de voltar pra casa. sozinha e bêbada. eu aprendi a me virar. a saber que os ídolos têm pés de barro. que os ídolos erram. que os ídolos bebem demais. que os ídolos morrem. eu não vou depender de quem morre. e todo mundo morre. e quem não morre a gente mata por dentro. eu ando sozinha. ídolos erram.

não acredito, assim, em ninguém acima nem abaixo. nesse caminho sozinho, tenho meus iguais ao meu lado. meus iguais riem comigo, comem comigo, dormem comigo. meus iguais podem saber mais ou menos do que eu, podem ser mais ou menos legais do que eu. eu jamais conseguirei colocar alguém no espaço de quem não erra, de quem eu devo seguir. eu não sigo. eu ando junto. porque eu não acredito em ninguém. e ninguém anda sozinho de verdade. a gente anda ao lado de pessoas absolutamente adoráveis, sedutoras e diferentes da gente. com quem a gente resolve e decide andar junto. não porque as pessoas são melhores do que a gente. porque elas saberão fazer algo ou poderão nos ajudar ou nos levar para um espaço onde as ruas são pavimentadas com ouro e pão de mel. a gente decide andar junto porque andar junto nos permite mais. nos deixa mais fortes. a gente decide andar junto porque o amor cria um elo mais forte que isso. porque junto a gente pode fazer outra coisa que não é o que veio antes.

junto a gente aumenta muito o nosso mundo. eu não gosto de ídolos.

24.7.16

não sei de nada

eu sigo não sabendo de nada. cresci achando que sabia, veja bem. a cada dia que estudo, sei menos. tô mais cansada. sabendo menos. eu sigo sabendo de nada. sigo buscando algo que não sei. seguirei buscando.

não me leve a mal. eu sei estudar. isso eu sei. sou boa em sentar a bunda e ler horas a fio. escrever sobre o que li. analisar. buscar coisas novas. eu gosto disso. tenho enorme prazer em falar sobre o que eu estudo. me incomodo quando não posso. sou chata. sou ranzinza, na verdade. mas enfim. é o domínio do que eu sei. eu sei falar sobre estudo. eu sei estudar. eu sei discutir e conversar.

o domínio do que eu não sei. e convenhamos, aos 40 anos, jamais saberei, é o das relações pessoais. sou um desastre. hora falo demais, hora falo de menos. hora entendo tudo errado, hora chego perto demais de quem não devia, e vez em quando sumo quando não devia. eu sou um desastre.

e acho que na verdade, todos somos. e seguiremos sendo. porque a vida da gente não veio com manual de instrução. mas de vez em quando tudo parece que dá certo. que se encaixa. e a gente segue esperando esses momentos. indefinidamente.

15.7.16

janis

o filme da janis. a história dela. como é triste. perceber que o buraco nunca é preenchido. nunca. que se tenta reiteradamente preencher. e ele segue esvaziando. o buraco segue voltando. e cada vez maior. e cada vez maior. a tristeza. o desamor. o buraco. enorme. enorme.

daí tem duas coisas. o buraco e quem permite o buraco. o buraco a gente tem. uns mais, outros menos. é aquilo que diz que você não merece. que você não é amado o suficiente. e nunca é suficiente. que você não é bom. e nunca vai ser. com o buraco. a gente tenta lidar. e vez em quando não dá pra lidar. vez em quando a gente se afoga nele. e faz parte da vida. e a gente sente culpa por se afogar no buraco. mas a gente na verdade não precisa se culpar. só precisa dar um jeito de lidar com o buraco. cada um tem o seu. comida. terapia. remédio. o dela era a droga. a droga e o palco preenchiam o buraco. quem sou eu pra dizer que não? só fico triste dela não perceber que tinha mais do que tinha.

e quem permite. não é só quem tem o buraco. é quem tá em volta e vê o buraco consumindo e não segura a mão. e não avisa que o outro tá se afogando. e não diz pra parar. o documentário fala como se a única pessoa assim fosse a tal namorada que foi a woodstock. mas todo mundo ali (menos o pobre namorado que não conseguiu mais estar perto) foi isso. todo mundo que usou ela. que não percebeu. que achou que era só temporário. nunca é. o buraco é companhia pra vida. ele não vai embora assim. e alguém precisa avisar a gente. que não repara sozinha. que o buraco tá maior que a gente.

13.7.16

o primo

precisamos falar sobre o primo. o primo que tá na sala e todo mundo finge que não existe. chama áfrica. ele tá aqui faz muito tempo. ele é parte do que nós somos, para o bem ou para o mal. e muita gente finge que não tá aqui. finge que não precisamos falar disso. afinal, temos negros na sociedade, é um fato. pra que falar sobre isso?

fui apresentar trabalho na argentina e me impressionei com a alvura da população. com a tentativa de ser ocidente. e me choquei com isso e me incomodei com não falarem. sobre a herança. sobre o genocídio deles. sobre o branqueamento.

mas na verdade mais verdadeira, o que tenho percebido cada vez mais é como nós, aqui, brasil, país que tem salvador. que tem enormes contingentes de adeptos de religiões de matriz afro. que tem carnaval. samba e axé. como nós fingimos que não temos nada a ver com a áfrica. não precisamos falar. tá resolvido.

não tá nada resolvido. não tem nenhuma ligação feita. tentamos apagar e branquear uma por uma. tentamos ainda efetivar o genocídio. no fundo no fundo, acho que muitos invejam a argentina, por ter sido bem sucedida no que falhamos. branqueamos a cultura. branqueamos a história. só falhamos em branquear a população. mas seguimos tentando.

não, cara. a áfrica é parte da nossa história. tem que ser. porque é dali que nós viemos. a europa não é e não deve ser o centro do nosso mundo. temos essa sorte. de não sermos ocidentais. precisamos aproveitar isso. precisamos levar adiante o nosso devir negro. precisamos saber o que se passa fora da europa. é urgente. é urgente porque precisamos interromper o genocídio. e isso faz parte dessa interrupção. faz parte olhar pra trás e saber de onde viemos. você já olhou hoje? é importante saber. quem a gente é. eu canso de falar que não sou planta pra ter raiz. mas eu sei de onde eu vim. e isso me ajuda a saber pra onde eu vou.

o brasil veio disso daí. da escravidão. da áfrica. de um sistema cruel e desumano. não só utilizamos, como fomos mercadores de escravos, e fomos escravos. entreposto. o porto do rio, o cais do valongo, foi o maior porto escravagista do mundo. o primo tá na sala. a gente precisa falar dele. sob a pena de jamais podermos saber pra onde vamos.