eu sou dessas caricaturas. algo não foi bem. corto cabelo. pinto cabelo. mudo cabelo. algo foi bem. corto cabelo. pinto cabelo. mudo cabelo. meu cabelo funciona, então, como uma espécie de anel do humor. lembram disso, dos anos 90? era um anel que mudava de cor com a temperatura. em formato de smiley (que hoje em dia chama emoticon, acho) ou de yin/yang. eu tinha um de cada. eu sou uma árvore de natal de tanto enfeite.
bom. isso foi a introdução. acontece que no dia da eleição eu tinha prometido raspar se freixo ganhasse. não ganhou, mas eu resolvi raspar. pra gastar o mau humor. e deixar ele lá, enterrado, junto com a tristeza e a desesperança. a vida precisa ser leve ou não acontece. eu faço umas coisas sem metas. porque eu desisti do mba faz é tempo. a vida não é mba. não tem plano de negócios. enfim. tergiverso. eu passei máquina 4 mesmo com s. judas não tendo entregue a causa impossível. não precisava. posso dar a ele a careca. e ele me dá o que puder depois. vai que me dá vida amorosa?
daí pra não sujar a casa, pus um pano debaixo da cadeira e passei a máquina. eu falei que eu tenho uma quantidade brutal de cabelo? e que isso é ligado ao fato de eu não ter medo de fazer merda com ele? ele cresce de novo em quantidades brutais. com um fio de cada cor entre o branco, o louro e o castanho. então, né? pra que ter medo. e passei a máquina e montes de cabelo ficaram no pano. e no vestido e na cadeira. e o que eu fiz? enrolei o pano e o vestido e deixei na varanda. passei aspirador em mim e na sala.
no dia seguinte. eu não avisei a diarista, que veio aqui em casa, de como eu tinha raspado a cabeça. o que ela fez? colocou o pano para lavar na máquina, sem desdobrar. me pareceu um raciocínio até simples, na real. o erro estúpido foi meu, claro, de não informar a uma pessoa. paga para limpar as coisas. que aquela coisa tinha uma sujeira específica. pessoas não são adivinhas.
daí estou eu até hoje. com cabelo saindo da máquina de lavar roupa. tirei e limpei o filtro. minha mãe quis colocar o filtro sozinha na máquina enquanto eu tomava banho. saí do banho e tinha água até na sala (a casa é toda de um piso só, sem batente). e toma secar cozinha. secar área. tirar cabelo. o lençol lavado depois. tem cabelo. as roupas. tem cabelo. cara. nunca desejei tanto ser realmente careca.
explica-se... na família, muito morena, nasce a loirinha aqui. meu avô olha, olha... e solta essa, nasci branca por cruza, algo deveria explicar...
aqui apenas os fatos são inventados
o essencial da arte é exprimir;
o que se exprime não interessa
fernando pessoa
2.11.16
10.10.16
já mudei
na verdade. eu quero saber o problema. em ser radical. em ser petista. em ser vadia. eu quero saber o problema. em não ser essa caixinha daí que você considera aceitável. porque eu não sou. eu tenho 40 anos e uso minissaia. e fui a reunião do pt, e fiz campanha desde 89. eu acredito em estudar e procurar entender as coisas. radicalmente. no sentido etimológico da palavra. porque eu não tenho raiz, mas as coisas tem. eu quero saber qual é o problema. porque a gente fica se desculpando e tentando dizer que não fala as coisas por ter lado. eu falo por ter lado, sim. e ter lado não significa estar errado. todo mundo tem seu lado. a maior falácia do mundo é a existência de um ser sem ideologia. de um ser sem lado. isolado. não estamos. escolhe aí. ou assume aí. mas para de tentar se colocar nesse papel puro. porque isso não te faz um pensador. te faz uma pessoa que não tem coragem. e quem não tem coragem tem medo do outro que tem coragem. porque é insuportável falar com quem faz o que a gente quer e não consegue fazer. a gente se sente diminuído. sai dessa. ouve o outro. conversa. tenha coragem. e tira as suas caixinhas dos meus pés. ou terei de trocar de biografia. pra por todas as etiquetas que tentaram me colocar na vida. vai ser longa. terão muitas. eu arranco todas. feito band aid. nem que pra isso eu me foda no caminho. eu não fico com elas. o meu caminho sou eu que faço. eu que determino. não me coloca no seu. não me diga que coisas eu devo me orgulhar ou sentir vergonha. não é você.
9.10.16
radical
eu tenho alguma noção de que esse texto não deve chegar a quem eu queria que chegasse. esses que acham que eu sou isso daí de radical. esses que acham que ser radical é algo ruim. algo que prevê quebras e perdas de todas as formas. esses que morrem de medo de mudança. eu sei disso. e acho uma pena. de algum jeito, eu queria falar com eles. segurar a mão e falar: cara. você me conhece. me vê na rua. é da minha família. estuda comigo. você sabe que eu não quebro nada (no máximo tropeço e caio). que eu sou uma ermitona um tanto tímida e de voz baixa. você sabe que eu escolho as brigas e já deixei na adolescência as brigas de bar e discussões na rua. você sabe que eu sou turrona mas me calo pra ouvir o outro. mas enfim. eu queria ser ouvida hoje. pra falar disso daí, dessa ideia do radical. do outro como fonte do medo.
eu posso falar que isso é filosoficamente estudado. a alteridade como fonte de medo e ódio. que isso é parte da engrenagem que gera o racismo. e parte da engrenagem que mantém o capitalismo. eu posso falar que um bando de coisa que eu não sei se você conhece. mas eu vou tentar falar sem ser assim. falar mostrando que não somos, todos, o outro do outro. os infernos dos outros. a gente não precisa eleger o outro assim com tanta força. o outro pode mudar. a gente pode mudar.
vem comigo aqui que eu te ajudo. mudar pode ser delicioso. a gente é mais forte como grupo. isso não é ser radical. é tentar acreditar no homem como medida de todas as coisas. no homem. acreditar que a gente pode. que a gente tem poder. o que eu busco, e tantos como eu, aqui, na caixa de ressonância e fora dela, não é uma quebra radical de tudo. é uma mudança, talvez radical, que permita que existam menos outros amedrontadores no mundo. é tirar de quem tem esse medo todo. mas me diz. por que você quer ter esse medo? acho que no frigir dos ovos, o que eu quero saber é isso: o que esse medo tem que as pessoas querem ele ao seu lado? ele é constituinte delas? tem gente que diz que sim. eu queria acreditar que não. que esse medo pode ser tirado. que podemos conversar aqui. e no mundo. para tentar entender. porque nesse instante. nessa hora. eu entendo muito pouco e busco muita coisa.
mas deixa. eu sou a maluca que gosta de roupa extravagante. que raspa a cabeça. que não entende você. mas eu quero entender. me explica. por que eu e os meus te ameaçamos? eu quero entender, porque eu não me sinto ameaçada pelos outros.
eu posso falar que isso é filosoficamente estudado. a alteridade como fonte de medo e ódio. que isso é parte da engrenagem que gera o racismo. e parte da engrenagem que mantém o capitalismo. eu posso falar que um bando de coisa que eu não sei se você conhece. mas eu vou tentar falar sem ser assim. falar mostrando que não somos, todos, o outro do outro. os infernos dos outros. a gente não precisa eleger o outro assim com tanta força. o outro pode mudar. a gente pode mudar.
vem comigo aqui que eu te ajudo. mudar pode ser delicioso. a gente é mais forte como grupo. isso não é ser radical. é tentar acreditar no homem como medida de todas as coisas. no homem. acreditar que a gente pode. que a gente tem poder. o que eu busco, e tantos como eu, aqui, na caixa de ressonância e fora dela, não é uma quebra radical de tudo. é uma mudança, talvez radical, que permita que existam menos outros amedrontadores no mundo. é tirar de quem tem esse medo todo. mas me diz. por que você quer ter esse medo? acho que no frigir dos ovos, o que eu quero saber é isso: o que esse medo tem que as pessoas querem ele ao seu lado? ele é constituinte delas? tem gente que diz que sim. eu queria acreditar que não. que esse medo pode ser tirado. que podemos conversar aqui. e no mundo. para tentar entender. porque nesse instante. nessa hora. eu entendo muito pouco e busco muita coisa.
mas deixa. eu sou a maluca que gosta de roupa extravagante. que raspa a cabeça. que não entende você. mas eu quero entender. me explica. por que eu e os meus te ameaçamos? eu quero entender, porque eu não me sinto ameaçada pelos outros.
4.10.16
os pontos
hoje acordei querendo entregar os pontos. e vou dormir do mesmo jeito. hoje o dia foi cansativo, improdutivo, foi dar murro em ponta de faca. hoje de quem eu quis ajuda eu tive conflito. de quem eu queria apoio, eu tive nada. hoje eu fui sozinha, eu fui cansada, eu fui brigando. hoje eu quero dormir e esquecer o hoje. quero ir pra cama e que todos os hojes se apaguem e todos os amanhãs possam aparecer. quero chorar até dormir sem ter de explicar nada. quero me exaurir e não saber mais nem porque eu comecei a chorar. porque eu não sei. se eu soubesse, talvez eu estivesse louca. eu choro porque hoje, porque amanhã, porque confusa, porque nada. choro porque não passa, não anda, não resolve. choro porque cada minuto do dia foi lutado, porque nem o pokémon me quis, porque eu tô cansada. porque eu tô cansada demais. porque eu não aguento mais e ainda falta muita estrada pra andar. e a sensação de que sempre falta muita estrada e que a estrada não vai acabar e eu tô cansada. hoje eu vou dormir e amanhã a estrada pelo menos vai ter flor. espero.
7.9.16
o sul
o sul é o meu país. não essa coisa fria do sul do país. não o sur mítico da américa. mas o sul dos subalternos. do negro. do que não é ocidental. no sul não somos iguais todos. no sul podemos mudar sempre. no sul os caminhos não são cartesianos. eu renego a lógica cartesiana que me criou. é complicado falar isso assim, eu sei. é difícil. não é lógico. mas eu aprendi faz muito tempo que a lógica. ela é superestimada. sobretudo aqui. nesse espaço que, queiramos ou não, não se curva ao cartesiano. não temos ruas quadriculadas. não temos acontecimentos lógicos. não temos sucessão histórica. a pergunta que fica pra mim é: qual a necessidade de buscar isso? se podemos construir esse outro a partir do que temos aqui?
temos aqui, no sul, o ocidente e a sua negação em convivência. podemos seguir tendo. precisamos seguir negando. porque o ocidente, aqui, entra como violência e como negação de cultura. como brutalidade. não precisamos repetir eternamente essa brutalidade. nada disso é exatamente o que eu queria dizer. tudo isso é um pouco do que eu quero ser. do que eu busco. novas formas. novas coisas. novos eus. novos nós. muito mais bacana do que buscar ser o que não somos. o que não querem que sejamos. o que não seremos jamais. fora do ocidente. fora do cartesianismo. podemos muito mais. muito. nossos corpos podem muito mais.
temos aqui, no sul, o ocidente e a sua negação em convivência. podemos seguir tendo. precisamos seguir negando. porque o ocidente, aqui, entra como violência e como negação de cultura. como brutalidade. não precisamos repetir eternamente essa brutalidade. nada disso é exatamente o que eu queria dizer. tudo isso é um pouco do que eu quero ser. do que eu busco. novas formas. novas coisas. novos eus. novos nós. muito mais bacana do que buscar ser o que não somos. o que não querem que sejamos. o que não seremos jamais. fora do ocidente. fora do cartesianismo. podemos muito mais. muito. nossos corpos podem muito mais.
5.9.16
ser guiada
quando eu era pequena. desde que eu me lembre. eu não queria ser menina. quer dizer. eu amava ser menina. eu amava coisas de menina. cores. saias. bonecas. unhas coloridas. cabelos longos. batom. eu nasci achando divertida a vaidade. detesto todo o resto. não gosto de cuidar de casa. não sei arrumar uma cama. não gosto de lavar a louça. só cozinho pra não morrer de fome. e, e isso é real, não faço carne porque tenho nojo. se morar sozinha, viro ovo-lacto vegetariana no mesmo dia. não gosto de passar o dia no salão e brigo no meio da rua. nunca fui uma boa mocinha. mas aprendi a ser mulher. me ensinaram. na verdade. eu gosto. fora a tal da menstruação. eu gosto. de usar as saias, as unhas, os enfeites, as tintas. claro que isso não é ser mulher. mas como nada define exatamente o que é. eu falo que é o que se aproxima dos signos considerados femininos.
tô definindo aqui. os que eu tenho. os outros eu não tenho. eu não sou delicada. não sou pequena. me recusei de forma bastante consciente e sistemática aos signos da mulher delicada. aos signos que me fechariam em uma definição. também me recusei aos da mulher intelectual, que deixa a vaidade de lado e não se penteia, e não faz as unhas. eu fui tentando achar os meus signos. e é sempre complicado buscar isso. um caminho e um espaço em que estamos, na verdade, sozinhos, porque ninguém está com a gente dentro da nossa cabeça, né?
e o meu caminho acabou sendo mais perto do pensar, da política, do questionar. e daí que não. eu não sei ser guiada. pode parecer que tem nada a ver. mas tem. e sabe o que é o pior? eu adoro dançar. eu tentei fazer aulas. eu tentei de tudo. eu sigo não deixando quase ninguém me guiar. e talvez essa seja a frustração da minha vida. não poder dançar.
tô definindo aqui. os que eu tenho. os outros eu não tenho. eu não sou delicada. não sou pequena. me recusei de forma bastante consciente e sistemática aos signos da mulher delicada. aos signos que me fechariam em uma definição. também me recusei aos da mulher intelectual, que deixa a vaidade de lado e não se penteia, e não faz as unhas. eu fui tentando achar os meus signos. e é sempre complicado buscar isso. um caminho e um espaço em que estamos, na verdade, sozinhos, porque ninguém está com a gente dentro da nossa cabeça, né?
e o meu caminho acabou sendo mais perto do pensar, da política, do questionar. e daí que não. eu não sei ser guiada. pode parecer que tem nada a ver. mas tem. e sabe o que é o pior? eu adoro dançar. eu tentei fazer aulas. eu tentei de tudo. eu sigo não deixando quase ninguém me guiar. e talvez essa seja a frustração da minha vida. não poder dançar.
1.9.16
pensar demais
eu penso demais. eu vivo na cabeça. eu narro o mundo porque pra mim ele só existe na narrativa. se eu estou calada. é porque eu queria estar falando. porque na produção de fala eu encontro sentido. não aquele sentido primordial que faz tudo parecer encaixado. eu deixo esse pros teóricos da conspiração e pros adolescentes que sabem o que fazem. mas sentido como em parecer que eu posso. não sei o que. mas posso.
nesse pensar demais, nessa fala, nessa pasmaceira de elefante, eu me aflijo e entendo quem precisa fazer o tempo todo. e eu uso e gosto dessas pessoas para poder agir. eu preciso dessa amizade. da pessoa que faz. eu preciso desse contraponto. eu falo. eu penso. eu crio. eu não sei agir. eu sozinha não saio daqui. exatamente de onde estou. sentada na cadeira com o computador e meus livros. eu poderia jamais na vida sair daqui. eu não ajo por mim. eu fico. estacionária como um elefante (eu adoro elefantes.
como eu amo saber que tem gente que vira pra mim e fala: vamos? porque eu vou. sempre. a sensação do corpo de que eu posso ser guiada. de que eu posso sair do sofá. de que alguém pode me falar o simples. dar o empurrão que eu, sozinha, não me dou. agradeço a todos os amigos que estão junto e me chamam pra ir. me dizem que devo ir. me sorriem e me falam o que preciso ouvir, fora da minha cabeça e dos livros tão amados. o mundo não é isso aqui.
tudo isso pra dizer que. o que se repete é o sintoma, é a forma do trauma. tá tudo errado mesmo. foi golpe. não posso ficar em casa agora. preciso sair para poder estar em conjunto e elaborar junto o que é que posso fazer no futuro. a elaboração individual, no mais das vezes, é só isso mesmo: elaboração individual. resolve com o analista, com o rabino, com o padre. cura culpa e dizem, até lumbago. mas não tenho agora nem culpa, nem lumbago. tenho pressa, tenho medo, tenho melancolia. essa. essas. eu vou curar com os amigos, com o junto, com o comum. não é o momento da minha cadeira.
11.8.16
fuga
fuga é um tipo de música em que parece que as notas saem correndo umas das outras. pra mim, ao menos. mas hoje me disseram que tenho muita imaginação. eu adoro fugas. me deixam com uma sensação de leveza. daí eu fui ler um post na renata. e ele falava de casas de mapa astral. e daí eu pensei na minha vida. em que estou aqui fugindo do trabalho vendo o mark spitz falar e esperando o phelps entrar na piscina.
eu fujo. eu saio correndo. eu não quero saber. eu esperneio, eu choro e eu fujo. faço muito bem. estou aqui reclamando da vida. de estar só. de estar mourejando com tanto trabalho. ok, de trabalho eu não fujo. eu gosto. eu peço. mas do resto... não se preocupem. eu posso voltar. um dia eu volto, quem sabe. mas eu preciso seguir indo e mudando. é bom. vocês deviam tentar. o salto no escuro. deixando pra trás tudo. um dia eu ainda saio do rio. mas o rio... talvez seja meu único relacionamento estável de verdade.
eu fujo. eu saio correndo. eu não quero saber. eu esperneio, eu choro e eu fujo. faço muito bem. estou aqui reclamando da vida. de estar só. de estar mourejando com tanto trabalho. ok, de trabalho eu não fujo. eu gosto. eu peço. mas do resto... não se preocupem. eu posso voltar. um dia eu volto, quem sabe. mas eu preciso seguir indo e mudando. é bom. vocês deviam tentar. o salto no escuro. deixando pra trás tudo. um dia eu ainda saio do rio. mas o rio... talvez seja meu único relacionamento estável de verdade.
5.8.16
alta cultura
não, sai daí. isso é infantilização. não, sai daí, não ouve essa música, ela é ruim. pera, isso é hiperssexualização. isso é bobo. isso é ruim. isso é infantil. isso é pouco sofisticado. isso não deve, não pode, não quero que exista. não devia existir, é isso.
então. assim. eu sou uma chata. uma chata que nasceu com 80 anos. uma chata que só ouve música dos anos 60. uma chata que só assiste filme velho (e adora musicais). uma chata que trabalha, vejam só, pesquisando literatura. mas a chata aqui aprendeu. na marra. debaixo de porrete se duvidar. que não. não tenho nada. zero. nadica mesmo. a ver com o que o outro assiste, joga, ouve, lê. não tem diferença alguma entre o meu luandino e o harry potter alheio. sigo preferindo luandino. é a minha vida isso daqui e eu gosto mais. você, espero, sabe do que você gosta. e, espero, não me ache mais chata do que achava antes porque eu prefiro o autor angolano pouco conhecido. eu gosto das brincadeiras com palavras e do engajamento político. eu tenho prazer vendo hello dolly. nem todo mundo ama barbra, eu sei. eu amo. a gente pode e deve amar as coisas. e devia não ligar pro que o outro ama.
me ensinaram. ali na marra. que alta cultura e baixa cultura. high e low brow, se vocês preferirem. são conceitos velhos. conceitos de quem acha que pode impor sua cultura aos outros. de quem acha que a cultura letrada e europeia é superior à cultura oral e não ocidental. e daí. tudo que não é ocidental entra nesse viés do ruim. do não valer. do precisar ser discutido e achincalhado. não. eu quero os barbarismos, diria manuel bandeira. todos. eu quero dançar e brincar na rua. eu quero comer com as mãos, fazendo capitão pras crianças perto de mim. quero ler também porque pra mim. e só pra mim. é importante. não precisa ser pra mais ninguém. vamos. a gente pode. entender que cultura é construção e coletivo. e também indivíduo e único. e que cada pedaço. cada cultura. cada jogo. cada livro. cada música. vale. mas não precisa gostar, não. pode só entender. que não é a sua. mas...
então. assim. eu sou uma chata. uma chata que nasceu com 80 anos. uma chata que só ouve música dos anos 60. uma chata que só assiste filme velho (e adora musicais). uma chata que trabalha, vejam só, pesquisando literatura. mas a chata aqui aprendeu. na marra. debaixo de porrete se duvidar. que não. não tenho nada. zero. nadica mesmo. a ver com o que o outro assiste, joga, ouve, lê. não tem diferença alguma entre o meu luandino e o harry potter alheio. sigo preferindo luandino. é a minha vida isso daqui e eu gosto mais. você, espero, sabe do que você gosta. e, espero, não me ache mais chata do que achava antes porque eu prefiro o autor angolano pouco conhecido. eu gosto das brincadeiras com palavras e do engajamento político. eu tenho prazer vendo hello dolly. nem todo mundo ama barbra, eu sei. eu amo. a gente pode e deve amar as coisas. e devia não ligar pro que o outro ama.
me ensinaram. ali na marra. que alta cultura e baixa cultura. high e low brow, se vocês preferirem. são conceitos velhos. conceitos de quem acha que pode impor sua cultura aos outros. de quem acha que a cultura letrada e europeia é superior à cultura oral e não ocidental. e daí. tudo que não é ocidental entra nesse viés do ruim. do não valer. do precisar ser discutido e achincalhado. não. eu quero os barbarismos, diria manuel bandeira. todos. eu quero dançar e brincar na rua. eu quero comer com as mãos, fazendo capitão pras crianças perto de mim. quero ler também porque pra mim. e só pra mim. é importante. não precisa ser pra mais ninguém. vamos. a gente pode. entender que cultura é construção e coletivo. e também indivíduo e único. e que cada pedaço. cada cultura. cada jogo. cada livro. cada música. vale. mas não precisa gostar, não. pode só entender. que não é a sua. mas...
4.8.16
gatilhos
eu procuro gatilhos. esses tais emocionais. eu tenho pavor de viver escondida, segura, certa do que faço. quero gatilhos. quero ser confrontada com minha fragilidade eterna. ser colocada na condição de saltar no escuro. de buscar o afeto. eu amo gatilhos. eles me fazem pensar como cheguei aqui. eles me fazem lembrar que. apesar de tudo. ou por causa de tudo. eu sobrevivi e estou aqui. exatamente como eu queria. ou de forma alguma como eu queria. mas aqui. com meus pedaços feito cacos colados. como aquela restauração com ouro japonesa. ficam as marcas. as marcas são eu também. não tenho nenhuma vontade de esconder as marcas. eu conto as marcas. eu choro com elas. elas tão aqui. como as quelóides. eu tentei tirar as quelóides. voltaram. eu desisti de tirar minhas marcas.
eu não entendo esse lugar quente e seguro que as pessoas buscam. eu não entendo esse lugar sem nenhum incômodo. sem nada que fuja do esperado ou do pretendido. sem que nada fuja do controle. a falta de controle me faz falar demais. aqui e nas outras redes. a falta de controle me faz amar. me faz querer ter afeto pelas coisas. pelas pessoas. pelos estudos. pelos saberes. o controle aprisiona a gente como mais uma coisa. se tudo está e é controlado, onde iremos? em que espaço queremos ficar? a gente se limita, e não ao mundo.
eu não quero ter limites eu não quero que nada fora de mim me impeça de nada. eu preciso saber que. o gatilho. a mudança. é minha. eu vou ouvir. lidar. passar e seguir. porque o mundo pode tentar. mas não precisa conseguir. a gente pode ser mais forte. sempre. como o jasmim manga. que não é bem jasmim nem manga. mas que renasce sempre depois de perder todas as folhas. e segue sendo a árvore mais linda. tem uma no meu jardim.
1.8.16
ídolos
ídolos têm pés de barro. a gente aprende isso cedo. aprende que veio sozinho e sai sozinho desse mundo. tem gente que não aprende, eu sei. mas eu aprendi muito cedo. não sei se por causa da figura paterna... digamos instável (mas adorável, absolutamente adorável e sedutora). eu aprendi que ídolos são lindos. ídolos são brilhantes. ídolos são sedutores. ídolos são menores do que eu. eu quem vou acordar de manhã. eu quem vou fazer meu trabalho. receber meu dinheiro. correr atrás. eu quem vou lidar com minha gripe. quem vou ter de voltar pra casa. sozinha e bêbada. eu aprendi a me virar. a saber que os ídolos têm pés de barro. que os ídolos erram. que os ídolos bebem demais. que os ídolos morrem. eu não vou depender de quem morre. e todo mundo morre. e quem não morre a gente mata por dentro. eu ando sozinha. ídolos erram.
não acredito, assim, em ninguém acima nem abaixo. nesse caminho sozinho, tenho meus iguais ao meu lado. meus iguais riem comigo, comem comigo, dormem comigo. meus iguais podem saber mais ou menos do que eu, podem ser mais ou menos legais do que eu. eu jamais conseguirei colocar alguém no espaço de quem não erra, de quem eu devo seguir. eu não sigo. eu ando junto. porque eu não acredito em ninguém. e ninguém anda sozinho de verdade. a gente anda ao lado de pessoas absolutamente adoráveis, sedutoras e diferentes da gente. com quem a gente resolve e decide andar junto. não porque as pessoas são melhores do que a gente. porque elas saberão fazer algo ou poderão nos ajudar ou nos levar para um espaço onde as ruas são pavimentadas com ouro e pão de mel. a gente decide andar junto porque andar junto nos permite mais. nos deixa mais fortes. a gente decide andar junto porque o amor cria um elo mais forte que isso. porque junto a gente pode fazer outra coisa que não é o que veio antes.
junto a gente aumenta muito o nosso mundo. eu não gosto de ídolos.
não acredito, assim, em ninguém acima nem abaixo. nesse caminho sozinho, tenho meus iguais ao meu lado. meus iguais riem comigo, comem comigo, dormem comigo. meus iguais podem saber mais ou menos do que eu, podem ser mais ou menos legais do que eu. eu jamais conseguirei colocar alguém no espaço de quem não erra, de quem eu devo seguir. eu não sigo. eu ando junto. porque eu não acredito em ninguém. e ninguém anda sozinho de verdade. a gente anda ao lado de pessoas absolutamente adoráveis, sedutoras e diferentes da gente. com quem a gente resolve e decide andar junto. não porque as pessoas são melhores do que a gente. porque elas saberão fazer algo ou poderão nos ajudar ou nos levar para um espaço onde as ruas são pavimentadas com ouro e pão de mel. a gente decide andar junto porque andar junto nos permite mais. nos deixa mais fortes. a gente decide andar junto porque o amor cria um elo mais forte que isso. porque junto a gente pode fazer outra coisa que não é o que veio antes.
junto a gente aumenta muito o nosso mundo. eu não gosto de ídolos.
24.7.16
não sei de nada
eu sigo não sabendo de nada. cresci achando que sabia, veja bem. a cada dia que estudo, sei menos. tô mais cansada. sabendo menos. eu sigo sabendo de nada. sigo buscando algo que não sei. seguirei buscando.
não me leve a mal. eu sei estudar. isso eu sei. sou boa em sentar a bunda e ler horas a fio. escrever sobre o que li. analisar. buscar coisas novas. eu gosto disso. tenho enorme prazer em falar sobre o que eu estudo. me incomodo quando não posso. sou chata. sou ranzinza, na verdade. mas enfim. é o domínio do que eu sei. eu sei falar sobre estudo. eu sei estudar. eu sei discutir e conversar.
o domínio do que eu não sei. e convenhamos, aos 40 anos, jamais saberei, é o das relações pessoais. sou um desastre. hora falo demais, hora falo de menos. hora entendo tudo errado, hora chego perto demais de quem não devia, e vez em quando sumo quando não devia. eu sou um desastre.
e acho que na verdade, todos somos. e seguiremos sendo. porque a vida da gente não veio com manual de instrução. mas de vez em quando tudo parece que dá certo. que se encaixa. e a gente segue esperando esses momentos. indefinidamente.
não me leve a mal. eu sei estudar. isso eu sei. sou boa em sentar a bunda e ler horas a fio. escrever sobre o que li. analisar. buscar coisas novas. eu gosto disso. tenho enorme prazer em falar sobre o que eu estudo. me incomodo quando não posso. sou chata. sou ranzinza, na verdade. mas enfim. é o domínio do que eu sei. eu sei falar sobre estudo. eu sei estudar. eu sei discutir e conversar.
o domínio do que eu não sei. e convenhamos, aos 40 anos, jamais saberei, é o das relações pessoais. sou um desastre. hora falo demais, hora falo de menos. hora entendo tudo errado, hora chego perto demais de quem não devia, e vez em quando sumo quando não devia. eu sou um desastre.
e acho que na verdade, todos somos. e seguiremos sendo. porque a vida da gente não veio com manual de instrução. mas de vez em quando tudo parece que dá certo. que se encaixa. e a gente segue esperando esses momentos. indefinidamente.
15.7.16
janis
o filme da janis. a história dela. como é triste. perceber que o buraco nunca é preenchido. nunca. que se tenta reiteradamente preencher. e ele segue esvaziando. o buraco segue voltando. e cada vez maior. e cada vez maior. a tristeza. o desamor. o buraco. enorme. enorme.
daí tem duas coisas. o buraco e quem permite o buraco. o buraco a gente tem. uns mais, outros menos. é aquilo que diz que você não merece. que você não é amado o suficiente. e nunca é suficiente. que você não é bom. e nunca vai ser. com o buraco. a gente tenta lidar. e vez em quando não dá pra lidar. vez em quando a gente se afoga nele. e faz parte da vida. e a gente sente culpa por se afogar no buraco. mas a gente na verdade não precisa se culpar. só precisa dar um jeito de lidar com o buraco. cada um tem o seu. comida. terapia. remédio. o dela era a droga. a droga e o palco preenchiam o buraco. quem sou eu pra dizer que não? só fico triste dela não perceber que tinha mais do que tinha.
e quem permite. não é só quem tem o buraco. é quem tá em volta e vê o buraco consumindo e não segura a mão. e não avisa que o outro tá se afogando. e não diz pra parar. o documentário fala como se a única pessoa assim fosse a tal namorada que foi a woodstock. mas todo mundo ali (menos o pobre namorado que não conseguiu mais estar perto) foi isso. todo mundo que usou ela. que não percebeu. que achou que era só temporário. nunca é. o buraco é companhia pra vida. ele não vai embora assim. e alguém precisa avisar a gente. que não repara sozinha. que o buraco tá maior que a gente.
daí tem duas coisas. o buraco e quem permite o buraco. o buraco a gente tem. uns mais, outros menos. é aquilo que diz que você não merece. que você não é amado o suficiente. e nunca é suficiente. que você não é bom. e nunca vai ser. com o buraco. a gente tenta lidar. e vez em quando não dá pra lidar. vez em quando a gente se afoga nele. e faz parte da vida. e a gente sente culpa por se afogar no buraco. mas a gente na verdade não precisa se culpar. só precisa dar um jeito de lidar com o buraco. cada um tem o seu. comida. terapia. remédio. o dela era a droga. a droga e o palco preenchiam o buraco. quem sou eu pra dizer que não? só fico triste dela não perceber que tinha mais do que tinha.
e quem permite. não é só quem tem o buraco. é quem tá em volta e vê o buraco consumindo e não segura a mão. e não avisa que o outro tá se afogando. e não diz pra parar. o documentário fala como se a única pessoa assim fosse a tal namorada que foi a woodstock. mas todo mundo ali (menos o pobre namorado que não conseguiu mais estar perto) foi isso. todo mundo que usou ela. que não percebeu. que achou que era só temporário. nunca é. o buraco é companhia pra vida. ele não vai embora assim. e alguém precisa avisar a gente. que não repara sozinha. que o buraco tá maior que a gente.
13.7.16
o primo
precisamos falar sobre o primo. o primo que tá na sala e todo mundo finge que não existe. chama áfrica. ele tá aqui faz muito tempo. ele é parte do que nós somos, para o bem ou para o mal. e muita gente finge que não tá aqui. finge que não precisamos falar disso. afinal, temos negros na sociedade, é um fato. pra que falar sobre isso?
fui apresentar trabalho na argentina e me impressionei com a alvura da população. com a tentativa de ser ocidente. e me choquei com isso e me incomodei com não falarem. sobre a herança. sobre o genocídio deles. sobre o branqueamento.
mas na verdade mais verdadeira, o que tenho percebido cada vez mais é como nós, aqui, brasil, país que tem salvador. que tem enormes contingentes de adeptos de religiões de matriz afro. que tem carnaval. samba e axé. como nós fingimos que não temos nada a ver com a áfrica. não precisamos falar. tá resolvido.
não tá nada resolvido. não tem nenhuma ligação feita. tentamos apagar e branquear uma por uma. tentamos ainda efetivar o genocídio. no fundo no fundo, acho que muitos invejam a argentina, por ter sido bem sucedida no que falhamos. branqueamos a cultura. branqueamos a história. só falhamos em branquear a população. mas seguimos tentando.
não, cara. a áfrica é parte da nossa história. tem que ser. porque é dali que nós viemos. a europa não é e não deve ser o centro do nosso mundo. temos essa sorte. de não sermos ocidentais. precisamos aproveitar isso. precisamos levar adiante o nosso devir negro. precisamos saber o que se passa fora da europa. é urgente. é urgente porque precisamos interromper o genocídio. e isso faz parte dessa interrupção. faz parte olhar pra trás e saber de onde viemos. você já olhou hoje? é importante saber. quem a gente é. eu canso de falar que não sou planta pra ter raiz. mas eu sei de onde eu vim. e isso me ajuda a saber pra onde eu vou.
o brasil veio disso daí. da escravidão. da áfrica. de um sistema cruel e desumano. não só utilizamos, como fomos mercadores de escravos, e fomos escravos. entreposto. o porto do rio, o cais do valongo, foi o maior porto escravagista do mundo. o primo tá na sala. a gente precisa falar dele. sob a pena de jamais podermos saber pra onde vamos.
fui apresentar trabalho na argentina e me impressionei com a alvura da população. com a tentativa de ser ocidente. e me choquei com isso e me incomodei com não falarem. sobre a herança. sobre o genocídio deles. sobre o branqueamento.
mas na verdade mais verdadeira, o que tenho percebido cada vez mais é como nós, aqui, brasil, país que tem salvador. que tem enormes contingentes de adeptos de religiões de matriz afro. que tem carnaval. samba e axé. como nós fingimos que não temos nada a ver com a áfrica. não precisamos falar. tá resolvido.
não tá nada resolvido. não tem nenhuma ligação feita. tentamos apagar e branquear uma por uma. tentamos ainda efetivar o genocídio. no fundo no fundo, acho que muitos invejam a argentina, por ter sido bem sucedida no que falhamos. branqueamos a cultura. branqueamos a história. só falhamos em branquear a população. mas seguimos tentando.
não, cara. a áfrica é parte da nossa história. tem que ser. porque é dali que nós viemos. a europa não é e não deve ser o centro do nosso mundo. temos essa sorte. de não sermos ocidentais. precisamos aproveitar isso. precisamos levar adiante o nosso devir negro. precisamos saber o que se passa fora da europa. é urgente. é urgente porque precisamos interromper o genocídio. e isso faz parte dessa interrupção. faz parte olhar pra trás e saber de onde viemos. você já olhou hoje? é importante saber. quem a gente é. eu canso de falar que não sou planta pra ter raiz. mas eu sei de onde eu vim. e isso me ajuda a saber pra onde eu vou.
o brasil veio disso daí. da escravidão. da áfrica. de um sistema cruel e desumano. não só utilizamos, como fomos mercadores de escravos, e fomos escravos. entreposto. o porto do rio, o cais do valongo, foi o maior porto escravagista do mundo. o primo tá na sala. a gente precisa falar dele. sob a pena de jamais podermos saber pra onde vamos.
11.7.16
você
eu sonhei com um nome para você. como se você fosse algo além de um rapaz que eu já vi na rua e achei interessante. como se eu te conhecesse. você tinha um nome. e a gente conversava. e você seguia interessante. eu gostei do meu sonho e sei que amanhã eu não vou mais sonhar com você. porque só fiz isso porque te vi ontem na praça. mas é gostoso colocar isso. falar isso. eu sonhei com você. e na verdade a gente só conversava e eu sabia o seu nome. o sonho era banal. e eu sei que seguirei sem saber quem você é. porque não temos amigos em comum. porque quando pensei que podia chegar e tentar puxar conversa, sua amiga, uma menina muito bonita, mais nova que eu mais de década, certeza, se interpôs no caminho e deixou claro que o território não era meu. eu passei da idade de querer provar o contrário. eu só sorri e saí de perto. fiquei num espaço para te ver. mas sem entrar no espaço dela. eu não sei o que ela quer. nem o que você quer. você me pareceu flanar ali. flertar com qualquer semovente. eu acho isso interessante. pessoas sedutoras. que não sabem sair desse papel. na verdade eu acho que é interessante só observar isso. é meio engraçado ver o gasto de energia. as caras, os abraços, as mãos, os movimentos de corpo. a sedução é uma arte que eu não domino. mas que admiro muito. aqui, do alto da minha dureza e falta de jogo de cintura, eu acho lindo quem sabe seduzir. aplauso e rio. não precisa gastar seu repertório comigo, não. mas me deixa ficar olhando de longe e me divertindo criando toda essa narrativa inexistente pra sua vida. que é muito divertido criar narrativas.
10.7.16
meninas
eu não devia, mas não paro de assistir gilmore girls em cada minuto que não trabalho ou não tenho eventos sociais imprescindíveis. cada momento que eu não vejo as meninas eu acho que errei em algo. então eu estou neste momento em algum ponto da segunda temporada e penso algumas coisas, ao rever em ordem e já conhecendo a história inteira.
1. amy sherman palladino é maravilhosa e realmente pensou no arco completo de cada um dos personagens desde o primeiro episódio. todos, até os doidivanas de stars hollow tem passado, presente e futuro, tem crescimento, são influenciados pelos acontecimentos. enfim. e dá pra ver, ao reassistir as cenas, onde ela quer chegar com aquilo. dicas o tempo todo, por exemplo, que o dean é um machistinha chato. que ele acaba sendo. que lorelai e luke terão futuro juntos. que emily sabe que errou e só quer conseguir consertar.
2. diante disso, cada personagem tem seus erros e acertos. rory para crescer escolhe um homem errado depois do outro. sabemos que a última temporada não era o que amy sherman-palladino queria. mal posso esperar pelo fim que ela queria para rory. para saber se ela tiraria o logan da história. se ela deixaria a menina solteira. se ela faria a menina aprender alguma coisa com logan. como aprendeu com jess e com dean. tudo ali é aprendizado pra personagem que começa com 16 anos. quero saber de lorelai também. e de luke. também de emily. como o tempo as ensinou. ansiosa por setembro.
3. em último, mas não menos importante. é um seriado sobre mulheres. meninas, como diz o título. é um seriado feito por, para mulheres. com personagens mulheres. sobre amizades entre mulheres. é um seriado mulherzinha. com tudo de bom e de ruim. com amizades adultas e adolescentes. com universo feminino. com homens que aparecem e somem. com trabalho, relações, crescimento, peitos, cores, saias, risos, álcool, cabelos, maquiagem, casamentos, separações. mas que não quer saber como os homens se sentem. somos nós, mulheres, ali na tela. ok. mulheres de connecticut talvez sejam um tipo específico de mulher. mas podemos nos identificar. com a cdf que não sabe lidar com meninos (oi, meu nome é antonia e eu sou uma paris). com a menina que quer ser perfeita porque acha que a mãe é uma doidivanas. com a mulher que quer consertar tudo porque foi uma adolescente rebelde. com a mãe que quer se reaproximar da filha. com a profissional que se apaixona. com a menina que não sabe lidar com a mãe severa. com a mãe severa. com a professora de balé. com a namorada que percebe que o namorado não gosta mais dela. cada uma delas é uma mulher inteira. e isso é raro na tv. e a grita toda, gente. tanta gente revendo. é porque é bom demais se ver na tela. desculpas, eu sei, tem parte minha que só gosta de lembrar de quando eu tinha 10 anos a menos. mas eu nunca vi gilmore girls jovem. eu já era velha. eu já sabia que a rory era chata. eu só curtia, como curto, ver mulheres como protagonistas. da vida delas.
1. amy sherman palladino é maravilhosa e realmente pensou no arco completo de cada um dos personagens desde o primeiro episódio. todos, até os doidivanas de stars hollow tem passado, presente e futuro, tem crescimento, são influenciados pelos acontecimentos. enfim. e dá pra ver, ao reassistir as cenas, onde ela quer chegar com aquilo. dicas o tempo todo, por exemplo, que o dean é um machistinha chato. que ele acaba sendo. que lorelai e luke terão futuro juntos. que emily sabe que errou e só quer conseguir consertar.
2. diante disso, cada personagem tem seus erros e acertos. rory para crescer escolhe um homem errado depois do outro. sabemos que a última temporada não era o que amy sherman-palladino queria. mal posso esperar pelo fim que ela queria para rory. para saber se ela tiraria o logan da história. se ela deixaria a menina solteira. se ela faria a menina aprender alguma coisa com logan. como aprendeu com jess e com dean. tudo ali é aprendizado pra personagem que começa com 16 anos. quero saber de lorelai também. e de luke. também de emily. como o tempo as ensinou. ansiosa por setembro.
3. em último, mas não menos importante. é um seriado sobre mulheres. meninas, como diz o título. é um seriado feito por, para mulheres. com personagens mulheres. sobre amizades entre mulheres. é um seriado mulherzinha. com tudo de bom e de ruim. com amizades adultas e adolescentes. com universo feminino. com homens que aparecem e somem. com trabalho, relações, crescimento, peitos, cores, saias, risos, álcool, cabelos, maquiagem, casamentos, separações. mas que não quer saber como os homens se sentem. somos nós, mulheres, ali na tela. ok. mulheres de connecticut talvez sejam um tipo específico de mulher. mas podemos nos identificar. com a cdf que não sabe lidar com meninos (oi, meu nome é antonia e eu sou uma paris). com a menina que quer ser perfeita porque acha que a mãe é uma doidivanas. com a mulher que quer consertar tudo porque foi uma adolescente rebelde. com a mãe que quer se reaproximar da filha. com a profissional que se apaixona. com a menina que não sabe lidar com a mãe severa. com a mãe severa. com a professora de balé. com a namorada que percebe que o namorado não gosta mais dela. cada uma delas é uma mulher inteira. e isso é raro na tv. e a grita toda, gente. tanta gente revendo. é porque é bom demais se ver na tela. desculpas, eu sei, tem parte minha que só gosta de lembrar de quando eu tinha 10 anos a menos. mas eu nunca vi gilmore girls jovem. eu já era velha. eu já sabia que a rory era chata. eu só curtia, como curto, ver mulheres como protagonistas. da vida delas.
6.7.16
escarlate
tem esse livro, né? a letra escarlate. hester com sua letra escarlate bordada. para sempre. por um erro pregresso. ok, a gente sabe que não é pregresso. mas ela vai presa. ela paga. e segue com a letra escarlate. ela é ostracizada. e segue vivendo com a letra vermelha bordada. adúltera. fora do padrão moral da sociedade. deve ser sempre lembrada do seu erro, jamais podendo voltar a uma vida comum.
a gente acha que o mundo mudou. que passamos a aceitar mais a diferença. que... enfim. daí aparece uma pessoa que errou e todo mundo sai correndo para pregar a letra vermelha na testa. cada um apegado à sua moral, que certamente é a mais correta. mas cuidado: se for gay, vai ter letra na testa. se escorregar num comentário, vai ter letra na testa. se usar a roupa errada. letra na testa.
e seguimos repetindo isso. como se ainda estivéssemos no séc. XVII. tirando do nosso convívio e marcando a ferro e fogo qualquer um que não esteja de acordo com a nossa moral. não é apenas questão de não querer estar perto. é de querer que a pessoa seja alijada da vida do comum. porque ela é tóxica. ela não deve poder andar com os outros, os puros, os que aprenderam a moral dos tempos. é um tanto puritano o pensamento.
eu que penso que moral é hiperestimada. eu que não sou boa. eu que erro tantas vezes. eu que não sei me comportar (nem namorar, mas isso é outra história). eu tô pedindo aqui. coloca a letra vermelha aí na minha testa preventivamente e me larga. me deixa ir ali fazer o que eu quero. eu vou pedir desculpas quando achar que falei bobagem. ou que errei. mas eu sei que pra vocês isso não vai ser nada. não vai adiantar. então me deixa aqui com a letra na testa. se duvidar, tatuo de uma vez.
a gente acha que o mundo mudou. que passamos a aceitar mais a diferença. que... enfim. daí aparece uma pessoa que errou e todo mundo sai correndo para pregar a letra vermelha na testa. cada um apegado à sua moral, que certamente é a mais correta. mas cuidado: se for gay, vai ter letra na testa. se escorregar num comentário, vai ter letra na testa. se usar a roupa errada. letra na testa.
e seguimos repetindo isso. como se ainda estivéssemos no séc. XVII. tirando do nosso convívio e marcando a ferro e fogo qualquer um que não esteja de acordo com a nossa moral. não é apenas questão de não querer estar perto. é de querer que a pessoa seja alijada da vida do comum. porque ela é tóxica. ela não deve poder andar com os outros, os puros, os que aprenderam a moral dos tempos. é um tanto puritano o pensamento.
eu que penso que moral é hiperestimada. eu que não sou boa. eu que erro tantas vezes. eu que não sei me comportar (nem namorar, mas isso é outra história). eu tô pedindo aqui. coloca a letra vermelha aí na minha testa preventivamente e me larga. me deixa ir ali fazer o que eu quero. eu vou pedir desculpas quando achar que falei bobagem. ou que errei. mas eu sei que pra vocês isso não vai ser nada. não vai adiantar. então me deixa aqui com a letra na testa. se duvidar, tatuo de uma vez.
5.7.16
não
faz isso não. não assim. assim me constrange. você não fica moderno e descolado. você me constrange. é. eu sei. eu jogo uns nomes. eu falo em teorias. imagina o pecado. eu detesto parecer que falei as coisas do nada. eu pensei antes de falar. eu trabalho com isso, sabe? não, você faz o que quiser da sua vida. eu estudo. eu não sou melhor por isso. só conheço isso daqui. certeza que você conhece mais o seu trabalho do que eu. sei nada de construir casas. de arquivar coisas. de cálculo. sou uma besta em um bando de coisa. não, cara. para. não existe gente culta. porque cultura todos temos. cada um tem a sua. tem o seu saber. para. eu sei algumas coisas. sei que reforçar estereótipos é uma espécie de racismo. mesmo que sejam estereótipos positivos. a gente reforça que a pessoa é para o que nasce. e ela não é, sabe? a gente é para o que a gente se faz na vida. apesar de eu estar aqui sendo o que eu nasci para fazer, depois de muito esperneio, a gente não deve se fechar nisso. nem achar que o outro deve se fechar. a gente é para o mundo. para o que a gente vai construindo aos poucos. aos pouquinhos. com o que nasceu. e com o que os outros trazem pra gente. lembrar de não se fechar pro que os outros trazem pra você. e vez em quando a gente faz merda. e fala idiotia. e devia ter mantido a boca calada. e morre de vergonha. mas cara. faz isso não.
isso também vai passar.
tem isso em inglês. "this too, shall pass" isso também vai passar. é aquela coisa. tem coisas que magoaram a gente. que deixaram a gente parado num passado que não devia prender. tem coisas que nos angustiaram, irritaram, entristeceram, enfim. mas vai passar. porque chega uma hora em que o vazio substitui. e você vê a pessoa na rua. e na verdade você demora a lembrar quem é. e fica criando uma outra narrativa para você. melhor do que admitir. que passou. e esse vazio ficou. e você precisa arranjar outro incômodo. que esse. já era.
sabe aquele cara que te fez mal? aquela menina que foi babaca? aquela festa em que você pagou o mico da vida? o problema de saúde que demorou a sarar? o luto pela morte de alguém querido? tudo isso vai passar. tudo isso vai de repente ser uma lembrança. uma narrativa como a de qualquer livro. um carinho sobra. uma nostalgia do que a gente efetivamente viveu. uma felicidade de se perceber, apesar de tudo, viva.
até lá. até passar. a gente esperneia. corta cabelo. pinta cabelo. deixa as pernas cabeludas. depila mais do que devia. vê filme no netflix 4 dias seguidos. malha feito louca todos os dias. não sai dos livros. chora. bebe. mas passa. e quando passa. a gente se sente bem de ter feito tudo isso. porque tudo isso. o choro, a tinta, a cera, o filme... tudo isso ajudou a passar.
e isso daí, amore. isso daí também vai passar. e a gente vai se abraçar e rir vendo o pôr do sol no arpoador. dar um mergulho no mar de verão. e ir pra casa dormir o sono dos anjos. sonhando com coisas que ainda não passaram.
sabe aquele cara que te fez mal? aquela menina que foi babaca? aquela festa em que você pagou o mico da vida? o problema de saúde que demorou a sarar? o luto pela morte de alguém querido? tudo isso vai passar. tudo isso vai de repente ser uma lembrança. uma narrativa como a de qualquer livro. um carinho sobra. uma nostalgia do que a gente efetivamente viveu. uma felicidade de se perceber, apesar de tudo, viva.
até lá. até passar. a gente esperneia. corta cabelo. pinta cabelo. deixa as pernas cabeludas. depila mais do que devia. vê filme no netflix 4 dias seguidos. malha feito louca todos os dias. não sai dos livros. chora. bebe. mas passa. e quando passa. a gente se sente bem de ter feito tudo isso. porque tudo isso. o choro, a tinta, a cera, o filme... tudo isso ajudou a passar.
e isso daí, amore. isso daí também vai passar. e a gente vai se abraçar e rir vendo o pôr do sol no arpoador. dar um mergulho no mar de verão. e ir pra casa dormir o sono dos anjos. sonhando com coisas que ainda não passaram.
1.7.16
mel
hoje eu tomei iogurte com mel.
não sei se é a lua. se é algum conhaque. mas ando nostálgica e um pouco comovida. lembrando de quem não está mais comigo. iogurte com mel me lembra a minha avó. pra quem não conheceu. ela era linda. mais bonita que a ingrid bergman. linda. ela ria e a sala parecia mais leve. não era de riso frouxo, era uma pessoa séria sobretudo.
ela gostava de algumas coisas. e se vocês me verem comendo ou fazendo elas. podem saber que faço em homenagem. em memória. ela gostava de iogurte com mel. de caldinho de feijão antes do almoço. de pimenta. até chorar com a comida. gostava de silêncio. e eu tive muito ciúme quando vi que os netos mais novos podiam fazer barulho. a idade a deixou mais suave. ou cansou de ralhar conosco, não sei.
ela gostava de roupas. extravagantes. o que é bonito tem de ser visto, ela dizia. não nascemos para nos esconder. para passar desapercebidos. ela gostava de chopp. isso eu só descobri depois. eu achava que ela gostava de beber só o vinho, só em família. um dia ela reclamou que eu nunca a chamava para beber com ela. e lá fomos nós num boteco. comer bolinho de bacalhau e beber chopp e conversar besteiras. eu com 20, ela com 70. algo assim. conversando sobre moda. sobre cinema. ela gostava do bergman e de cinema iraniano (eu detesto cinema iraniano).
avó todo mundo tem duas, eu sei. e avô também. eu sei que eu tive os 4 de praxe. um morreu muito cedo. o marido dela, que ela amou tanto, amor que conheceu nas cartas. os outros dois eu nunca tive tanta proximidade. ela era a Avó em caixa alta. e eu tive o prazer dela perto muito tempo. mas ela ainda faz falta. tinha coisas que eu penso. que eu sei que só ela entenderia.
não sei se é a lua. se é algum conhaque. mas ando nostálgica e um pouco comovida. lembrando de quem não está mais comigo. iogurte com mel me lembra a minha avó. pra quem não conheceu. ela era linda. mais bonita que a ingrid bergman. linda. ela ria e a sala parecia mais leve. não era de riso frouxo, era uma pessoa séria sobretudo.
ela gostava de algumas coisas. e se vocês me verem comendo ou fazendo elas. podem saber que faço em homenagem. em memória. ela gostava de iogurte com mel. de caldinho de feijão antes do almoço. de pimenta. até chorar com a comida. gostava de silêncio. e eu tive muito ciúme quando vi que os netos mais novos podiam fazer barulho. a idade a deixou mais suave. ou cansou de ralhar conosco, não sei.
ela gostava de roupas. extravagantes. o que é bonito tem de ser visto, ela dizia. não nascemos para nos esconder. para passar desapercebidos. ela gostava de chopp. isso eu só descobri depois. eu achava que ela gostava de beber só o vinho, só em família. um dia ela reclamou que eu nunca a chamava para beber com ela. e lá fomos nós num boteco. comer bolinho de bacalhau e beber chopp e conversar besteiras. eu com 20, ela com 70. algo assim. conversando sobre moda. sobre cinema. ela gostava do bergman e de cinema iraniano (eu detesto cinema iraniano).
avó todo mundo tem duas, eu sei. e avô também. eu sei que eu tive os 4 de praxe. um morreu muito cedo. o marido dela, que ela amou tanto, amor que conheceu nas cartas. os outros dois eu nunca tive tanta proximidade. ela era a Avó em caixa alta. e eu tive o prazer dela perto muito tempo. mas ela ainda faz falta. tinha coisas que eu penso. que eu sei que só ela entenderia.
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