1.8.16

ídolos

ídolos têm pés de barro. a gente aprende isso cedo. aprende que veio sozinho e sai sozinho desse mundo. tem gente que não aprende, eu sei. mas eu aprendi muito cedo. não sei se por causa da figura paterna... digamos instável (mas adorável, absolutamente adorável e sedutora). eu aprendi que ídolos são lindos. ídolos são brilhantes. ídolos são sedutores. ídolos são menores do que eu. eu quem vou acordar de manhã. eu quem vou fazer meu trabalho. receber meu dinheiro. correr atrás. eu quem vou lidar com minha gripe. quem vou ter de voltar pra casa. sozinha e bêbada. eu aprendi a me virar. a saber que os ídolos têm pés de barro. que os ídolos erram. que os ídolos bebem demais. que os ídolos morrem. eu não vou depender de quem morre. e todo mundo morre. e quem não morre a gente mata por dentro. eu ando sozinha. ídolos erram.

não acredito, assim, em ninguém acima nem abaixo. nesse caminho sozinho, tenho meus iguais ao meu lado. meus iguais riem comigo, comem comigo, dormem comigo. meus iguais podem saber mais ou menos do que eu, podem ser mais ou menos legais do que eu. eu jamais conseguirei colocar alguém no espaço de quem não erra, de quem eu devo seguir. eu não sigo. eu ando junto. porque eu não acredito em ninguém. e ninguém anda sozinho de verdade. a gente anda ao lado de pessoas absolutamente adoráveis, sedutoras e diferentes da gente. com quem a gente resolve e decide andar junto. não porque as pessoas são melhores do que a gente. porque elas saberão fazer algo ou poderão nos ajudar ou nos levar para um espaço onde as ruas são pavimentadas com ouro e pão de mel. a gente decide andar junto porque andar junto nos permite mais. nos deixa mais fortes. a gente decide andar junto porque o amor cria um elo mais forte que isso. porque junto a gente pode fazer outra coisa que não é o que veio antes.

junto a gente aumenta muito o nosso mundo. eu não gosto de ídolos.

24.7.16

não sei de nada

eu sigo não sabendo de nada. cresci achando que sabia, veja bem. a cada dia que estudo, sei menos. tô mais cansada. sabendo menos. eu sigo sabendo de nada. sigo buscando algo que não sei. seguirei buscando.

não me leve a mal. eu sei estudar. isso eu sei. sou boa em sentar a bunda e ler horas a fio. escrever sobre o que li. analisar. buscar coisas novas. eu gosto disso. tenho enorme prazer em falar sobre o que eu estudo. me incomodo quando não posso. sou chata. sou ranzinza, na verdade. mas enfim. é o domínio do que eu sei. eu sei falar sobre estudo. eu sei estudar. eu sei discutir e conversar.

o domínio do que eu não sei. e convenhamos, aos 40 anos, jamais saberei, é o das relações pessoais. sou um desastre. hora falo demais, hora falo de menos. hora entendo tudo errado, hora chego perto demais de quem não devia, e vez em quando sumo quando não devia. eu sou um desastre.

e acho que na verdade, todos somos. e seguiremos sendo. porque a vida da gente não veio com manual de instrução. mas de vez em quando tudo parece que dá certo. que se encaixa. e a gente segue esperando esses momentos. indefinidamente.

15.7.16

janis

o filme da janis. a história dela. como é triste. perceber que o buraco nunca é preenchido. nunca. que se tenta reiteradamente preencher. e ele segue esvaziando. o buraco segue voltando. e cada vez maior. e cada vez maior. a tristeza. o desamor. o buraco. enorme. enorme.

daí tem duas coisas. o buraco e quem permite o buraco. o buraco a gente tem. uns mais, outros menos. é aquilo que diz que você não merece. que você não é amado o suficiente. e nunca é suficiente. que você não é bom. e nunca vai ser. com o buraco. a gente tenta lidar. e vez em quando não dá pra lidar. vez em quando a gente se afoga nele. e faz parte da vida. e a gente sente culpa por se afogar no buraco. mas a gente na verdade não precisa se culpar. só precisa dar um jeito de lidar com o buraco. cada um tem o seu. comida. terapia. remédio. o dela era a droga. a droga e o palco preenchiam o buraco. quem sou eu pra dizer que não? só fico triste dela não perceber que tinha mais do que tinha.

e quem permite. não é só quem tem o buraco. é quem tá em volta e vê o buraco consumindo e não segura a mão. e não avisa que o outro tá se afogando. e não diz pra parar. o documentário fala como se a única pessoa assim fosse a tal namorada que foi a woodstock. mas todo mundo ali (menos o pobre namorado que não conseguiu mais estar perto) foi isso. todo mundo que usou ela. que não percebeu. que achou que era só temporário. nunca é. o buraco é companhia pra vida. ele não vai embora assim. e alguém precisa avisar a gente. que não repara sozinha. que o buraco tá maior que a gente.

13.7.16

o primo

precisamos falar sobre o primo. o primo que tá na sala e todo mundo finge que não existe. chama áfrica. ele tá aqui faz muito tempo. ele é parte do que nós somos, para o bem ou para o mal. e muita gente finge que não tá aqui. finge que não precisamos falar disso. afinal, temos negros na sociedade, é um fato. pra que falar sobre isso?

fui apresentar trabalho na argentina e me impressionei com a alvura da população. com a tentativa de ser ocidente. e me choquei com isso e me incomodei com não falarem. sobre a herança. sobre o genocídio deles. sobre o branqueamento.

mas na verdade mais verdadeira, o que tenho percebido cada vez mais é como nós, aqui, brasil, país que tem salvador. que tem enormes contingentes de adeptos de religiões de matriz afro. que tem carnaval. samba e axé. como nós fingimos que não temos nada a ver com a áfrica. não precisamos falar. tá resolvido.

não tá nada resolvido. não tem nenhuma ligação feita. tentamos apagar e branquear uma por uma. tentamos ainda efetivar o genocídio. no fundo no fundo, acho que muitos invejam a argentina, por ter sido bem sucedida no que falhamos. branqueamos a cultura. branqueamos a história. só falhamos em branquear a população. mas seguimos tentando.

não, cara. a áfrica é parte da nossa história. tem que ser. porque é dali que nós viemos. a europa não é e não deve ser o centro do nosso mundo. temos essa sorte. de não sermos ocidentais. precisamos aproveitar isso. precisamos levar adiante o nosso devir negro. precisamos saber o que se passa fora da europa. é urgente. é urgente porque precisamos interromper o genocídio. e isso faz parte dessa interrupção. faz parte olhar pra trás e saber de onde viemos. você já olhou hoje? é importante saber. quem a gente é. eu canso de falar que não sou planta pra ter raiz. mas eu sei de onde eu vim. e isso me ajuda a saber pra onde eu vou.

o brasil veio disso daí. da escravidão. da áfrica. de um sistema cruel e desumano. não só utilizamos, como fomos mercadores de escravos, e fomos escravos. entreposto. o porto do rio, o cais do valongo, foi o maior porto escravagista do mundo. o primo tá na sala. a gente precisa falar dele. sob a pena de jamais podermos saber pra onde vamos.

11.7.16

você

eu sonhei com um nome para você. como se você fosse algo além de um rapaz que eu já vi na rua e achei interessante. como se eu te conhecesse. você tinha um nome. e a gente conversava. e você seguia interessante. eu gostei do meu sonho e sei que amanhã eu não vou mais sonhar com você. porque só fiz isso porque te vi ontem na praça. mas é gostoso colocar isso. falar isso. eu sonhei com você. e na verdade a gente só conversava e eu sabia o seu nome. o sonho era banal. e eu sei que seguirei sem saber quem você é. porque não temos amigos em comum. porque quando pensei que podia chegar e tentar puxar conversa, sua amiga, uma menina muito bonita, mais nova que eu mais de década, certeza, se interpôs no caminho e deixou claro que o território não era meu. eu passei da idade de querer provar o contrário. eu só sorri e saí de perto. fiquei num espaço para te ver. mas sem entrar no espaço dela. eu não sei o que ela quer. nem o que você quer. você me pareceu flanar ali. flertar com qualquer semovente. eu acho isso interessante. pessoas sedutoras. que não sabem sair desse papel. na verdade eu acho que é interessante só observar isso. é meio engraçado ver o gasto de energia. as caras, os abraços, as mãos, os movimentos de corpo. a sedução é uma arte que eu não domino. mas que admiro muito. aqui, do alto da minha dureza e falta de jogo de cintura, eu acho lindo quem sabe seduzir. aplauso e rio. não precisa gastar seu repertório comigo, não. mas me deixa ficar olhando de longe e me divertindo criando toda essa narrativa inexistente pra sua vida. que é muito divertido criar narrativas.

10.7.16

meninas

eu não devia, mas não paro de assistir gilmore girls em cada minuto que não trabalho ou não tenho eventos sociais imprescindíveis. cada momento que eu não vejo as meninas eu acho que errei em algo. então eu estou neste momento em algum ponto da segunda temporada e penso algumas coisas, ao rever em ordem e já conhecendo a história inteira.

1. amy sherman palladino é maravilhosa e realmente pensou no arco completo de cada um dos personagens desde o primeiro episódio. todos, até os doidivanas de stars hollow tem passado, presente e futuro, tem crescimento, são influenciados pelos acontecimentos. enfim. e dá pra ver, ao reassistir as cenas, onde ela quer chegar com aquilo. dicas o tempo todo, por exemplo, que o dean é um machistinha chato. que ele acaba sendo. que lorelai e luke terão futuro juntos. que emily sabe que errou e só quer conseguir consertar.

2. diante disso, cada personagem tem seus erros e acertos. rory para crescer escolhe um homem errado depois do outro. sabemos que a última temporada não era o que amy sherman-palladino queria. mal posso esperar pelo fim que ela queria para rory. para saber se ela tiraria o logan da história. se ela deixaria a menina solteira. se ela faria a menina aprender alguma coisa com logan. como aprendeu com jess e com dean. tudo ali é aprendizado pra personagem que começa com 16 anos. quero saber de lorelai também. e de luke. também de emily. como o tempo as ensinou. ansiosa por setembro.

3. em último, mas não menos importante. é um seriado sobre mulheres. meninas, como diz o título. é um seriado feito por, para mulheres. com personagens mulheres. sobre amizades entre mulheres. é um seriado mulherzinha. com tudo de bom e de ruim. com amizades adultas e adolescentes. com universo feminino. com homens que aparecem e somem. com trabalho, relações, crescimento, peitos, cores, saias, risos, álcool, cabelos, maquiagem, casamentos, separações. mas que não quer saber como os homens se sentem. somos nós, mulheres, ali na tela. ok. mulheres de connecticut talvez sejam um tipo específico de mulher. mas podemos nos identificar. com a cdf que não sabe lidar com meninos (oi, meu nome é antonia e eu sou uma paris). com a menina que quer ser perfeita porque acha que a mãe é uma doidivanas. com a mulher que quer consertar tudo porque foi uma adolescente rebelde. com a mãe que quer se reaproximar da filha. com a profissional que se apaixona. com a menina que não sabe lidar com a mãe severa. com a mãe severa. com a professora de balé. com a namorada que percebe que o namorado não gosta mais dela. cada uma delas é uma mulher inteira. e isso é raro na tv. e a grita toda, gente. tanta gente revendo. é porque é bom demais se ver na tela. desculpas, eu sei, tem parte minha que só gosta de lembrar de quando eu tinha 10 anos a menos. mas eu nunca vi gilmore girls jovem. eu já era velha. eu já sabia que a rory era chata. eu só curtia, como curto, ver mulheres como protagonistas. da vida delas.

6.7.16

escarlate

tem esse livro, né? a letra escarlate. hester com sua letra escarlate bordada. para sempre. por um erro pregresso. ok, a gente sabe que não é pregresso. mas ela vai presa. ela paga. e segue com a letra escarlate. ela é ostracizada. e segue vivendo com a letra vermelha bordada. adúltera. fora do padrão moral da sociedade. deve ser sempre lembrada do seu erro, jamais podendo voltar a uma vida comum.

a gente acha que o mundo mudou. que passamos a aceitar mais a diferença. que... enfim. daí aparece uma pessoa que errou e todo mundo sai correndo para pregar a letra vermelha na testa. cada um apegado à sua moral, que certamente é a mais correta. mas cuidado: se for gay, vai ter letra na testa. se escorregar num comentário, vai ter letra na testa. se usar a roupa errada. letra na testa.

e seguimos repetindo isso. como se ainda estivéssemos no séc. XVII. tirando do nosso convívio e marcando a ferro e fogo qualquer um que não esteja de acordo com a nossa moral. não é apenas questão de não querer estar perto. é de querer que a pessoa seja alijada da vida do comum. porque ela é tóxica. ela não deve poder andar com os outros, os puros, os que aprenderam a moral dos tempos. é um tanto puritano o pensamento.

eu que penso que moral é hiperestimada. eu que não sou boa. eu que erro tantas vezes. eu que não sei me comportar (nem namorar, mas isso é outra história). eu tô pedindo aqui. coloca a letra vermelha aí na minha testa preventivamente e me larga. me deixa ir ali fazer o que eu quero. eu vou pedir desculpas quando achar que falei bobagem. ou que errei. mas eu sei que pra vocês isso não vai ser nada. não vai adiantar. então me deixa aqui com a letra na testa. se duvidar, tatuo de uma vez.

5.7.16

não

faz isso não. não assim. assim me constrange. você não fica moderno e descolado. você me constrange. é. eu sei. eu jogo uns nomes. eu falo em teorias. imagina o pecado. eu detesto parecer que falei as coisas do nada. eu pensei antes de falar. eu trabalho com isso, sabe? não, você faz o que quiser da sua vida. eu estudo. eu não sou melhor por isso. só conheço isso daqui. certeza que você conhece mais o seu trabalho do que eu. sei nada de construir casas. de arquivar coisas. de cálculo. sou uma besta em um bando de coisa. não, cara. para. não existe gente culta. porque cultura todos temos. cada um tem a sua. tem o seu saber. para. eu sei algumas coisas. sei que reforçar estereótipos é uma espécie de racismo. mesmo que sejam estereótipos positivos. a gente reforça que a pessoa é para o que nasce. e ela não é, sabe? a gente é para o que a gente se faz na vida. apesar de eu estar aqui sendo o que eu nasci para fazer, depois de muito esperneio, a gente não deve se fechar nisso. nem achar que o outro deve se fechar. a gente é para o mundo. para o que a gente vai construindo aos poucos. aos pouquinhos. com o que nasceu. e com o que os outros trazem pra gente. lembrar de não se fechar pro que os outros trazem pra você. e vez em quando a gente faz merda. e fala idiotia. e devia ter mantido a boca calada. e morre de vergonha. mas cara. faz isso não.

isso também vai passar.

tem isso em inglês. "this too, shall pass" isso também vai passar. é aquela coisa. tem coisas que magoaram a gente. que deixaram a gente parado num passado que não devia prender. tem coisas que nos angustiaram, irritaram, entristeceram, enfim. mas vai passar. porque chega uma hora em que o vazio substitui. e você vê a pessoa na rua. e na verdade você demora a lembrar quem é. e fica criando uma outra narrativa para você. melhor do que admitir. que passou. e esse vazio ficou. e você precisa arranjar outro incômodo. que esse. já era.

sabe aquele cara que te fez mal? aquela menina que foi babaca? aquela festa em que você pagou o mico da vida? o problema de saúde que demorou a sarar? o luto pela morte de alguém querido? tudo isso vai passar. tudo isso vai de repente ser uma lembrança. uma narrativa como a de qualquer livro. um carinho sobra. uma nostalgia do que a gente efetivamente viveu. uma felicidade de se perceber, apesar de tudo, viva.

até lá. até passar. a gente esperneia. corta cabelo. pinta cabelo. deixa as pernas cabeludas. depila mais do que devia. vê filme no netflix 4 dias seguidos. malha feito louca todos os dias. não sai dos livros. chora. bebe. mas passa. e quando passa. a gente se sente bem de ter feito tudo isso. porque tudo isso. o choro, a tinta, a cera, o filme... tudo isso ajudou a passar.

e isso daí, amore. isso daí também vai passar. e a gente vai se abraçar e rir vendo o pôr do sol no arpoador. dar um mergulho no mar de verão. e ir pra casa dormir o sono dos anjos. sonhando com coisas que ainda não passaram.

1.7.16

mel

hoje eu tomei iogurte com mel.

não sei se é a lua. se é algum conhaque. mas ando nostálgica e um pouco comovida. lembrando de quem não está mais comigo. iogurte com mel me lembra a minha avó. pra quem não conheceu. ela era linda. mais bonita que a ingrid bergman. linda. ela ria e a sala parecia mais leve. não era de riso frouxo, era uma pessoa séria sobretudo.

ela gostava de algumas coisas. e se vocês me verem comendo ou fazendo elas. podem saber que faço em homenagem. em memória. ela gostava de iogurte com mel. de caldinho de feijão antes do almoço. de pimenta. até chorar com a comida. gostava de silêncio. e eu tive muito ciúme quando vi que os netos mais novos podiam fazer barulho. a idade a deixou mais suave. ou cansou de ralhar conosco, não sei.

ela gostava de roupas. extravagantes. o que é bonito tem de ser visto, ela dizia. não nascemos para nos esconder. para passar desapercebidos. ela gostava de chopp. isso eu só descobri depois. eu achava que ela gostava de beber só o vinho, só em família. um dia ela reclamou que eu nunca a chamava para beber com ela. e lá fomos nós num boteco. comer bolinho de bacalhau e beber chopp e conversar besteiras. eu com 20, ela com 70. algo assim. conversando sobre moda. sobre cinema. ela gostava do bergman e de cinema iraniano (eu detesto cinema iraniano).

avó todo mundo tem duas, eu sei. e avô também. eu sei que eu tive os 4 de praxe. um morreu muito cedo. o marido dela, que ela amou tanto, amor que conheceu nas cartas. os outros dois eu nunca tive tanta proximidade. ela era a Avó em caixa alta. e eu tive o prazer dela perto muito tempo. mas ela ainda faz falta. tinha coisas que eu penso. que eu sei que só ela entenderia.

30.6.16

de repente

de repente esfriou. de repente eu me vesti. de repente eu não sei o que estou fazendo. pera. isso eu nunca sei. de repente eu me assustei. de repente nada. tudo na minha vida é lento. sou um paquiderme, eu disse.

como devagar, ando devagar, me mexo devagar. quase em câmera lenta vez em quando o mundo passa na minha frente. anos pra decidir. anos para fazer. anos para mudar. de repente.

agora estou eu. de repente onde eu me sinto confortável. de repente com as coisas andando. de repente com amigos que eu gosto de ter. de repente com um caminho que me interessa. de repente dando oi para ele. de repente. nada de repente.

e de repente me vem um eco do passado. de repente me assusto. de repente saio contando. de repente não era nada e volto pro trabalho.

de repente volto a ouvir essa música. de repente não é mais sobre você. de repente esse vazio não existe mais. porque de repente ele virou cicatriz. e cicatriz também é parte da gente.

27.6.16

urgência

hoje acordei diferente. sem urgência. eu sei. isso deveria ser algo tranquilizante. mas não é. urgências criam ação. ações enterram angústia. eu não preciso agir e não sei como fazer isso. não tem nada que eu precise fazer nas próximas horas. tá. tem trocar o lençol, lavar roupa, faxina. mas isso não é urgente. isso é diário. eu falo de urgência.

acho vez em quando que escolho as pessoas que preciso na vida por essa noção de urgência. cada um de nós coloca ela em uma coisa, repara. mas a gente sempre tem. e tem quem diga que isso é paixão. não sei se é. é um chamado. uma necessidade. uma urgência. pode ser por um livro. uma religião. uma pessoa. eu escolhi ter urgências. ou elas me escolheram. e quando elas saem de mim o vazio que fica é muito assustador. e preenchido com outras urgências.

na vida, eu aprendi a domar as urgências. a pedir que elas me esperem, que tenham seu tempo. aprendi que algumas amigas seguem sendo urgentes como eu. e por isso sigo querendo estar ao lado delas. porque mesmo com todo o tempo. toda a distância. ainda podemos ser urgentes juntas. ainda podemos nos abraçar e reconhecer que nos demos a mão por isso. porque somos em busca. não uma busca perdida. uma busca por algo que se adeque a essa urgência.

quando a gente perde isso. quando a urgência desiste da gente. é um pouco de vida que sai. a sensação pra mim é essa. de algo que esvazia. preciso inflar de novo. puxar o ar. segurar o ar como um balão. em tensão. tensão de superfície. onde mantenho tudo com o ar. como a estenose que nasceu comigo, a tensão de puxar o ar pra dentro quando ele falta.

23.6.16

afeto

uma vez, num exercício de retórica na pós de interpretação, tiramos papéis para falarmos sobre um assunto. eu tirei afeto. e uma colega achou que fazia sentido. na minha cabeça de quem leu demais, não entendi porque para ela fazia sentido. afinal, afetamos uns aos outros o tempo todo. ela quis dizer que eu era afetuosa, gentil. que eu me preocupava com as colegas, o que não era comum.

hoje fui almoçar com uma colega de turma. da escola. eu acho que não sei dizer quando eu não conheci essa turma. éramos poucas. poucos. éramos quase todas mulheres. éramos unidas. éramos felizes. tanto quanto adolescentes podem ser felizes. falamos das amigas em comum. e eu percebi de novo. que eu mantive alguma ideia de onde estão as colegas. eu nunca fui a melhor amiga de todos. mas eu sou ligada aos afetos. eu me apego ao que me afetou. eu sei onde estão os colegas. mesmo sem falar com eles todos os dias. e essas pessoas são amigas. mesmo sem falar todo ano.

uma está em brasília. outra em paris. outra aqui do lado em laranjeiras. um em são paulo. somos todas uma só, ela disse. a gente aprendeu com a gente a se portar nesse mundo, ela disse. você não julgava as nossas loucuras ela disse. e você sempre foi careta. você defendia as loucuras da gente, ela disse.

eu me senti acarinhada. e sem saber porque. depois eu entendi. existe algo em amizades de mais de vinte anos. algo que a gente não pode definir. algo que a gente não pode controlar. a gente sabe quem o outro é. e o outro muda. corta cabelo. cresce cabelo. casa. separa. tatua. muda. mas aquele afeto ali. aquele original, o que criou a gente adulto. tá aqui, na mão. renasce se encontra.

encontrar maria foi reencontrar comigo. foi lembrar o que a gente era. o que a gente ainda é. somos muitas. somos poucas. estamos aqui, sempre, umas pelas outras. uns pelos outros. não vamos a lugar algum. e não mexa conosco. a gente não anda só. a gente é multidão. de poucos, mas multidão. e é sempre bom saber disso. que eu tenho elas. eles. e elas me tem. eles.

eu aprendi que não sou sozinha.

17.6.16

jeito

daí eu fui no gato curioso lá. e no gato curioso me perguntaram se o brasil tem jeito. e eu não quis responder pra não ser grossa. e insistiram. falando em república de bananas e tals. e eu respondi e enfim. me alongando.

eu não sei o que é ter jeito. porque o ter jeito implica em que precisa ser dado um jeito. que está errado do jeito que está. eu não acho que está errado. não errado como quem me perguntou qual o jeito. eu acho que o brasil é um país que foi colônia e que vive, ainda hoje, da violência e da necropolítica resultantes de não sair do ciclo de violência imposto pela metrópole. pera. me explico. eu li fanon e ainda não me recuperei. eu li mbembe. eu li um bando de coisa. e eu vejo as coisas pelos olhos de quem eu li. porque eu faço isso vez em quando. e o tal ciclo de violência. ele pode ser quebrado quando a gente cria algo novo, que não é o mesmo que a colônia era.

o brasil ainda é a colônia. como o são angola, moçambique, nigéria, colômbia, argentina... somos todos a perpetuação dos esquemas. a continuação do trauma da violência. temos todos a capacidade de criar algo novo, não ocidental, miscigenado não mais como a metrópole quis que fosse. eu acredito nessa capacidade de elaborar que a cultura pode nos dar. não sei economicamente. não analiso economicamente, porque não sei. o que posso falar é no que acredito. culturalmente. porque a cultura não ocidental a gente tem. falta é acreditar nela de verdade.

15.6.16

ser menina

quando eu era pequena. quer dizer. quando eu era menor (isso é um amigo da família que diz. que eu nunca fui pequena, não posso falar inverdades). eu amava um texto chamado mulherzinhas. louisa may alcott. teve uma peça de teatro com ele ali no shopping da gávea. mulherzinhas.

eram 4 personagens, crescendo nos eua da guerra de secessão. eram 4 mulheres, claro. eu lembro que na peça a sílvia buarque era uma delas. a que morria de tuberculose. mas ela era a personagem fraca. a que eu não gostava. eu gostava da jo. não lembro quem fazia a jo. no cinema era a winona ryder, acho.

a jo, gente. ela não queria ser menina. ela queria ser jornalista. e meninas não podiam ser jornalistas. a jo cortava os cabelos para vender porque a família tava dura que o pai tava na guerra. a jo era tudo que eu queria ser. talvez a jo seja um pouco a minha mãe e eu seja a luiza, morrendo de tuberculose.

eu me identificava com a jo. eu não entendia porque eu tinha de ser menina. apesar de ser brutalmente vaidosa. e de ser de uma família que jamais me impediria de ser o que eu quisesse ser. inclusive solteira. enfim

tudo isso porque me perguntaram sobre feministas e autoras que eu curto e eu lembrei que. louisa may alcott. leiam sobre ela. faz é muito tempo. ela tava aí escrevendo sobre meninas que não casam e vão pra cidade virar jornalistas. faz é muito tempo, e as pessoas precisam lembrar disso. que nós, mulheres, existimos nesse mundo de homens. e hoje eu ouvi um colega falar "eu penso nas mulheres da europa, que eram casadas, a não ser que fossem aristocratas, não eram cosmopolitas" e peço que lembrem de jo. que era um alter ego de louisa. lembrem que no séc XIX nós já existíamos.

chega de fingir que as mulheres só existem como indivíduos a partir da segunda metade do séc. XX. isso também é invisibilização. a gente sempre teve aí. em menor número talvez. mas sempre teve. e não vamos a lugar algum e vamos estar cada vez mais. cortando nossos cabelos. usando calças. deixando os cabelos longos e usando saias. a gente não vai a lugar algum, amigos. se acostumem. somos aqui. pertencemos aqui. nossa minoria política vai continuar fazendo barulho. continuar se tornando isso daqui que é o outro de vocês. um dos outros. vocês, homens brancos ocidentais. vocês são um universal que cada dia existe menos. nós, todos os outros. nunca não existimos, mesmo contra toda a sua narrativa de universalidade. nós aqui estamos. e não esperamos ninguém.

música

não sou uma pessoa musical, ou ao menos o que se costuma chamar disso. inclusive, sou das raras pessoas que não trabalha ouvindo música. na verdade, isso é porque eu começo a digitar a letra da música. melhora. se a música é em inglês, digito em português. se é em português, digito em inglês. daí eu não sou uma pessoa musical. 

enorme introdução para o nada. para variar. sou prolixa. engraçado que não sou em trabalhos acadêmicos. onde eu deveria ser. enfim. outra enorme introdução. tudo isso só para falar que: hoje eu tive uma aula que não deveria ser nada além das outras aulas. e falamos sobre o livro Alzira está morta e sobre África e Salvador e Atlântico Negro e diáspora, essas coisas que fazem parte do que eu tô tentando entender do mundo. e daí a orientadora falou dos blocos afro. algo que eu soube um dia, acho. e anos 70 e 80 e Salvador efervescente. e a importância do Egito negro para tudo isso.

saí da aula faz 3 horas já. ainda me pego cantando "mara mara mara maravilha ê/ egito, egito ê" e me pego rebolandinho aqui na cadeira.

resumo da ópera: como os deuses, não acredito em estudos que não dancem.

13.6.16

estreitamento

estenose quer dizer estreitamento. nasci estreitada. provavelmente por esforço no parto, dizem. no parto que não pode ser natural, que foi emergencial e no susto. e sobrevivi. com um nó no pescoço (literal, se eu fico cansada ele reaparece). umas manchas de nascença (que aparecem quando eu fico irritada/cansada, na testa, na nuca. umas bolotas vermelhas). e uma estenose pulmonar. vulgo sopro no coração. que hoje em dia é assintomática.

minha mãe vai ficar muito impressionada. e dizer que não sabia que eu tinha ficado tão mexida com isso. que não achava que eu tivesse uma infância tão diferente. e nem tive. eu era a mais velha de 9 irmãos. isso em si era mais exótico do que ser cardíaca. mas eu era cardíaca. eu não conseguia nadar tanto quanto os irmãos, nem tão rápido. eu não conseguia aguentar o frio. eu gripava. eu tenho um cardiologista desde que nasci. quantas pessoas podem falar isso? eu tenho de ir todo ano ao cardiologista desde que nasci. mesmo sendo assintomático.

na verdade. eu ainda gripo. eu ainda acho a sensação de gripe a mais infernal que um ser humano pode viver. eu não sei lidar com isso. eu odeio lidar com isso. a falta de ar me lembra a hora em que o meu corpo desiste. meu corpo desiste. o de vocês desiste? ele me avisa que vai parar e para. meus desmaios, no entanto, não são por esforço. são por pressão. o meu corpo compensou muito bem a estenose. eu tenho pressão muito baixa. quando tô irritada, chega a 12 por 8.  tergiverso, pra variar.

meu corpo me avisa que chega. e cai gripado. e eu mal consigo levantar e fazer um chá. eu odeio essa sensação. de peso em todos os membros. de olhos sempre fundos. de ar sempre faltando. uma hora passa. eu vou ao cardiologista todo ano. eu não tenho nada.

11.6.16

viagem

sou dessas que precisa sair. para voltar. já disse algum dia aqui. sou apaixonada pelo rio desde pequena. apesar de ter morado fora quando pequena. fora do rio. em fortaleza. eu volto. preciso do rio como preciso de mim mesma. acho que me confundo com ele. com o por do sol na praia. com o samba nas quadras. com a feira na rua. depois de muito tempo sinto falta até da av. brasil, gente. toda a confusão de gente. de caras fechadas e de abraços abertos. de gente chiando. ontem mexeram comigo aqui. que o meu chiado não nega. porque eu chio falando portunhol. ixpetáculo.

eu saio e venho tentar ver o outro. eu preciso tentar analisar o outro. como eu me analiso. eu demorei a me tornar acadêmica. pesquisadora. mas eu entendo que é o que posso fazer. olhar. ver. pensar. só funciono assim. posso ir ao futebol. adoro beber cerveja. me sinto bem demais no baile charm. amo até touradas, vejam vocês. nada é acrítico. nada é do nada. tudo eu posso discutir e até rever minha posição. tudo é passível de ser compreendido.

dito isso. nada é tomado pelo seu valor de face. não acredito na primeira coisa que ouço. vou pesquisar e tentar entender. tô aqui com uma gata cega e surda no colo. falando com amigos pela internet. revendo um trabalho. conversando com gente daqui sobre temas que me afligiram. os apagamentos. os pactos fundadores das nações. tentando entender o dos outros. a mim interessa isso. é parte da viagem. é parte do conhecer. não conheci nada se só vi o lado bom. o rio é uma merda. mas é maravilhoso. e assim falo de muitos lugares.

aqui na argentina, reitero, me incomoda o extremo nacionalismo e o apagamento dos negros. mas eu estudo isso. eu terei isso percebido onde quer que eu vá. é o meu jeito de poder ir. não digo que isso não seja um problema em outros lugares. mas é aqui. comprei uns livros sobre. (o mundo, ele existe nos livros, vocês sabem, né?) e vamos ver o que eles dizem. segunda volto ao rio e teremos de volta nos meus olhos peles diferentes. e verei de novo barulho na rua. e gente de perna de fora. e me sentirei em casa. porque toda análise pra mim se borra em casa. eu tenho meu ninho. e fico feliz. ainda preciso ir pro que analiso. quem vem comigo andar a áfrica?

6.6.16

coração

sexta me queimaram a mão com cigarro. fazia talvez uns dez anos que eu não me colocava assim. num lugar em que podem queimar a minha mão com cigarro. eu lembro ainda quando minhas saias tinham todas furos de cigarro. meu e das amigas. das noites dançando. na dr smith. na sweet home. na bunker. na bang. no ballroom. na fundição. noites sem lei do cigarro em que o cabelo fedia a fumaça a semana inteira. noites dançando de olhos fechados e sorriso solto, com as bolsas no chão. amigo chamava de ebó de discoteca.
dançar deixa o corpo da gente mais inteiro. sabe que eu nem sinto falta de falar quando eu danço? e isso quer dizer alguma coisa, eu prometo. eu paro de falar quando danço. eu rio. eu gosto de dançar em par. mas o cara tem de saber guiar. porque eu sou ruim de ser guiada. nem todo mundo consegue. daí eu descobri esse lugar. ao ar livre. com músicas que eu curto dançar. e eu me sinto ali como me sentia nas festas em que eu era jovem. podendo fechar os olhos e podendo me queimar. porque fechar os olhos é autorizar o mundo a acordar a gente desse transe. e ele acorda.
e minha mão queimou. e hoje eu olhei pra bolha que ficou. acinzentada, como sói acontecer com bolhas criadas por cigarros. e achei que ela tem forma de coração.
então. queria dizer. que me senti meio que acalentada por isso, por mais irracional que possa ser me sentir reconfortada pela forma de uma bolha. mas um coração pode segurar as nossas pernas. e tendo um que veio com defeito. é sempre bom ter um externo.

4.6.16

nada

não foi nada. um esbarrão na rua. e as coisas parece que são alguma coisa vez em quando. que poderiam ter sido. mas não foram. o momento não é de nada ser. é dessas incertezas. mentira. a vida tem me dado certezas. uma delas é de que eu sou sozinha. não sozinha triste. não sozinha maluca. sozinha. eu curto me trancar e não abrir a boca. não sair de casa. deitar no sofá e ficar ali. eu curto um bando de coisa que não dá pra fazer se eu desistir de ser sozinha. e não quero abrir mão disso. não agora. não quero colocar em causa. discutir. conversar. ceder. quero essa zona que tá aqui em volta e aqui dentro.
mas o esbarrão. a mão doendo. o olhar. me fizeram ficar assim. feito alguém que quer ceder essa zona e abrir espaço. e não foi nada e não será nada. mas eu lembrei por um momento que tem um lado que acha bom. o par. as horas. o encanto. que sabe que não tem nada demais isso. que o prazer é bom. eu tô aqui enrolada. pensando em mil coisas. e de repente essa lembrança de que pode ter o encanto. desestabiliza tudo. e o chão volta a sair um pouco de debaixo dos pés da gente. como que a gente faz?